domingo, 25 de março de 2018

CADA CRIANÇA, UMA DEMANDA


O TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA – TEA 

O autismo decorre de uma ruptura do desenvolvimento cerebral causada por uma combinação de genes e meio ambiente (WEINTRAUB, 2011). Desde a década de 1970, foi sabido por estudos de gêmeos que existe um alto grau de herdabilidade, mas não completo. Nos últimos anos, esforços bem financiados e coordenados, aliados aos avanços em tecnologia, levaram a estudos em grande escala de poder estatístico sem precedentes, produzindo dados impressionantes sobre a genética da condição. Entretanto, esses dados confirmaram apenas que a resposta é incrivelmente complicada. Com a exceção de alguns distúrbios raros, como a síndrome de X-frágil ou Rett, que leva a formas de autismo, nenhuma interrupção de um gene individual ou conjunto de genes, pode prever de forma confiável a condição. (STATE; LEVITT, 2011).
Segundo o DSM-V, as características para o diagnóstico do TEA são: 
[...] prejuízo persistente na comunicação social recíproca e na interação social (Critério A) e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (Critério B). Esses sintomas estão presentes desde o início da infância e limitam ou prejudicam o funcionamento diário (Critérios C e D). O estágio em que o prejuízo funcional fica evidente irá variar de acordo com características do indivíduo e seu ambiente. [...]. Manifestações do transtorno também variam muito dependendo da gravidade da condição autista, do nível de desenvolvimento e da idade cronológica; daí o uso do termo espectro. (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, p. 53). 
No Brasil, o diagnóstico é pautado pelo CID 10 – F84.0: 
Transtorno global do desenvolvimento caracterizado por a) um desenvolvimento anormal ou alterado, manifestado antes da idade de três anos, e b) apresentando uma perturbação característica do funcionamento em cada um dos três domínios seguintes: interações sociais, comunicação, comportamento focalizado e repetitivo. Além disso, o transtorno se acompanha comumente de numerosas outras manifestações inespecíficas, por exemplo fobias, perturbações de sono ou da alimentação, crises de birra ou agressividade (autoagressividade). (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 1997). 
O TEA atinge atualmente um a cada 68 nascidos, a maioria meninos. Recebe o nome de espectro porque envolve situações e apresentações muito diferentes umas das outras, numa gradação que vai das mais leves (Asperger) à mais grave (autismo clássico ou autismo severo). Os meninos são quase cinco vezes mais propensos a serem identificados com autismo do que as meninas. Aproximadamente, um em cada 42 meninos nascidos e uma em cada 189 meninas nascidas estão sendo identificados com TEA. As crianças brancas ou caucasianas são mais propensas a serem identificadas com autismo do que as crianças negras ou hispânicas. Cerca de uma em cada 63 crianças brancas são identificadas, em comparação com uma em 81 crianças negras e uma em 93 crianças hispânicas (COURSERA, 2016). Apesar da escassez de dados nacionais, um estudo epidemiológico recente na cidade de Atibaia-SP, com 1.470 participantes entre 7-12 anos de idade, estimou uma prevalência de 27,2/10.000 habitantes (Intervalo de Confiança – IC 95%: 17,6 a 36,8). Um fato observado no estudo é de que, dos indivíduos com TEA somente um dos quatro já sabia previamente o diagnóstico (recebido aos 6 anos) e os outros três casos não recebiam nenhum atendimento especializado. (CONITEC, 2014). Cientistas suspeitam que o que se denomina autismo pode ser uma série de condições distintas que possuem diferentes etiologias genéticas e ambientais, mas produzem sintomas similares (WEINTRAUB, 2011).   
O TEA se apresenta em três níveis: (i) grau leve – necessidade de pouco apoio –; (ii) grau moderado – necessidade de apoio substancial –; (iii) grau severo – necessidade de apoio muito substancial. Esse apoio deve considerar as necessidades individuais, as dificuldades na comunicação, nos interesses restritos e comportamentos repetitivos (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).
Fala-se também em Autismo de Alta Funcionalidade que são aqueles indivíduos que sofrem determinado desenvolvimento intelectual e linguístico, mas que não são classificados como Asperger (BRITO et al, 2013). A intervenção precoce com terapia em pacientes com autismo pode efetivamente melhorar significativamente os sintomas. Atualmente, a análise do comportamento aplicado é uma abordagem aceita mundialmente em terapias com crianças com TEA.  
Nos últimos anos, a investigação das características de brinquedos terapêuticos para crianças com TEA tem sido considerada como um método importante para a compreensão da patologia do autismo e mais estudos foram realizados usando este tipo de método de brincadeira (TSENG; TSENG; CHENG, 2016).
Por favor, dê os créditos ao autor do artigo, fazendo a referência correta:

MENEZES, Ana Paula Sá. O Ato Terapêutico do Brincar para Crianças com Autismo. Educar FCE, v. 9, n. 1, p. 62-75, out. 2017. Disponível em: http://www.fce.edu.br/pos/educar-fce-9a-edicao 


CADA CRIANÇA, UMA DEMANDA 

O autismo é caracterizado por três traços comuns: (i) dificuldades com a interação social, (ii) comunicação verbal e não-verbal alterada e (iii) comportamentos repetitivos. Até que ponto uma pessoa é afetada pelo autismo varia, e é importante lembrar que duas pessoas – apesar de serem diagnosticadas com TEA não são iguais. O que dá certo para uma criança não necessariamente dará certo com outra criança autista. A boa notícia é que, devido ao aumento dos diagnósticos de autismo precocemente, há muito o que se pode ser feito para apoiar as pessoas que convivem com crianças com TEA. 
 A intervenção precoce é fundamental ao apoiar uma pessoa com autismo. Apoiar uma criança através da ludicidade é a melhor maneira para elas aprenderem. O ato de brincar é mais do que deixar uma criança brincar com brinquedos. No TEA, o objetivo do brincar vai mais além do que com crianças neurotípicas: é a interação social e o engajamento com as pessoas.  
Para a criança com TEA, o ato de brincar passa a ter uma abordagem em que essas crianças podem usar a função do corpo para expressar uma emoção inerente para alcançar a comunicação interativa, estabelecendo assim habilidades interpessoais e promovendo a adaptação social (TSENG; TSENG; CHENG, 2016). No entanto, dado que estão limitados pelas dificuldades de interação e comunicação, as crianças autistas geralmente jogam sozinhas, raramente interagindo com outras pessoas. Assim, seus padrões de brincadeiras tendem a ser bastante fixos e repetitivos. 
Nada ilumina mais o cérebro tanto quanto o ato de brincar. Brincadeiras tridimensionais ativam o cerebelo, que mandam vários impulsos para o lobo frontal, o que ajuda o desenvolvimento da memória contextual (GURUPARENTS, 2015; NATIONAL INSTITUTE FOR PLAY, 2017). Das primeiras experiências do ato de brincar, as crianças aprendem a compreender a linguagem corporal, o contato visual, a atenção conjunta, a iniciação, a partilha, a resolução de problemas e as habilidades de referência. O ato de brincar ajuda as crianças a desenvolverem habilidades importantes que precisarão para o resto de suas vidas. 
O National Institute for Play é uma instituição de pesquisa sobre o Ato de Brincar (2017). É uma corporação sem fins lucrativos de benefício público comprometida em trazer o conhecimento, práticas e benefícios do ato de brincar na vida do ser humano. Fundado pelo Dr. Stuart Brown, formado em Psiquiatria e Pesquisa Clínica. Ele descobriu pela primeira vez a importância do jogo discernindo sua ausência em um grupo cuidadosamente estudado de jovens homicidas, começando com o assassino em massa da Torre da Universidade do Texas, Charles Whitman. Mais tarde, tornou-se diretor clínico fundador e chefe de Psiquiatria no Mercy Hospital e Medical Center e professor associado na UCSD em San Diego, Califórnia. Ao longo de sua carreira clínica, ele entrevistou milhares de pessoas para capturar seus perfis de brincadeiras. A catalogação de seus perfis demonstrou a presença ativa do ato de brincar nas realizações das consequências negativas muito bem sucedidas e igualmente identificadas que se serial killers acumulam inevitáveis em uma vida privada do ato de brincar. Ao se falar em assassinos, dentre outros, muito se fala na criação violenta que tiveram, muitos foram vítimas de agressões, inclusive de cunho sexual. Pouco se falava, entretanto, na falta do brincar na vida dessas crianças. Numa das pesquisas do Dr. Stuart, os pesquisadores programaram ratazanas para que, num determinado período de sua infância um grupo brincasse e outro grupo ficasse privado do ato. Depois, ambos os grupos foram expostos a uma situação de estresse e ambos fugiram e se esconderam. Entretanto, o grupo que foi permitido participar do ato de brincar, mesmo com medo, saiu do esconderijo lentamente para explorar o ambiente e verificar se estavam fora de perigo. O outro grupo permaneceu acuado e escondido até morrerem. Os pesquisadores concluíram que o ato de brincar é muito útil para a nossa sobrevivência. Muitas pesquisas com animais estão sendo realizadas e todas elas levam a uma mesma conclusão: a privação do ato de brincar, leva os indivíduos à depressão. (NATIONAL INSTITUTE FOR PLAY, 2017). 
A criança autista não brinca como as outras. Para que elas se envolvam apropriadamente com as várias demandas e respondam a elas, requerem o auxílio de um terapeuta experiente e um amplo espaço com muitos brinquedos e equipamentos simples, porém especiais. Quando o terapeuta está fazendo o seu trabalho de forma eficiente, a criança está organizando o seu sistema nervoso e parece que está simplesmente vivenciando um passatempo. (GUIA MINHA SAÚDE ESPECIAL, 2016).  

Entre no link e leia o artigo na íntegra: http://www.fce.edu.br/pos/educar-fce-9a-edicao 

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