O TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA – TEA
O autismo
decorre de uma ruptura do desenvolvimento cerebral causada por uma combinação
de genes e meio ambiente (WEINTRAUB, 2011). Desde a década de 1970, foi sabido
por estudos de gêmeos que existe um alto grau de herdabilidade, mas não
completo. Nos últimos anos, esforços bem financiados e coordenados, aliados aos
avanços em tecnologia, levaram a estudos em grande escala de poder estatístico
sem precedentes, produzindo dados impressionantes sobre a genética da condição.
Entretanto, esses dados confirmaram apenas que a resposta é incrivelmente
complicada. Com a exceção de alguns distúrbios raros, como a síndrome de
X-frágil ou Rett, que leva a formas de autismo, nenhuma interrupção de um gene
individual ou conjunto de genes, pode prever de forma confiável a condição.
(STATE; LEVITT, 2011).
Segundo o DSM-V, as características para o diagnóstico do TEA
são:
[...] prejuízo persistente na comunicação social recíproca e na
interação social (Critério A) e padrões restritos e repetitivos de
comportamento, interesses ou atividades (Critério B). Esses sintomas estão
presentes desde o início da infância e limitam ou prejudicam o funcionamento
diário (Critérios C e D). O estágio em que o prejuízo funcional fica evidente
irá variar de acordo com características do indivíduo e seu ambiente. [...].
Manifestações do transtorno também variam muito dependendo da gravidade da
condição autista, do nível de desenvolvimento e da idade cronológica; daí o uso
do termo espectro. (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, p. 53).
No Brasil, o diagnóstico é pautado pelo CID 10 – F84.0:
Transtorno global do desenvolvimento caracterizado por a) um
desenvolvimento anormal ou alterado, manifestado antes da idade de três anos, e
b) apresentando uma perturbação característica do funcionamento em cada um dos
três domínios seguintes: interações sociais, comunicação, comportamento
focalizado e repetitivo. Além disso, o transtorno se acompanha comumente de
numerosas outras manifestações inespecíficas, por exemplo fobias, perturbações
de sono ou da alimentação, crises de birra ou agressividade
(autoagressividade). (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 1997).
O TEA atinge atualmente um a cada 68 nascidos, a maioria meninos.
Recebe o nome de espectro porque envolve situações e apresentações muito
diferentes umas das outras, numa gradação que vai das mais leves (Asperger) à
mais grave (autismo clássico ou autismo severo). Os meninos são quase cinco
vezes mais propensos a serem identificados com autismo do que as meninas.
Aproximadamente, um em cada 42 meninos nascidos e uma em cada 189 meninas
nascidas estão sendo identificados com TEA. As crianças brancas ou caucasianas
são mais propensas a serem identificadas com autismo do que as crianças negras
ou hispânicas. Cerca de uma em cada 63 crianças brancas são identificadas, em
comparação com uma em 81 crianças negras e uma em 93 crianças hispânicas
(COURSERA, 2016). Apesar da escassez de dados nacionais, um estudo
epidemiológico recente na cidade de Atibaia-SP, com 1.470 participantes entre
7-12 anos de idade, estimou uma prevalência de 27,2/10.000 habitantes
(Intervalo de Confiança – IC 95%: 17,6 a 36,8). Um fato observado no estudo é
de que, dos indivíduos com TEA somente um dos quatro já sabia previamente o
diagnóstico (recebido aos 6 anos) e os outros três casos não recebiam nenhum
atendimento especializado. (CONITEC, 2014). Cientistas suspeitam que o que se
denomina autismo pode ser uma série de condições distintas que possuem
diferentes etiologias genéticas e ambientais, mas produzem sintomas similares
(WEINTRAUB, 2011).
O TEA se apresenta em três níveis: (i) grau leve – necessidade de
pouco apoio –; (ii) grau moderado – necessidade de apoio substancial –; (iii)
grau severo – necessidade de apoio muito substancial. Esse apoio deve
considerar as necessidades individuais, as dificuldades na comunicação, nos
interesses restritos e comportamentos repetitivos (AMERICAN PSYCHIATRIC
ASSOCIATION, 2014).
Fala-se também em Autismo de Alta Funcionalidade que são aqueles
indivíduos que sofrem determinado desenvolvimento intelectual e linguístico,
mas que não são classificados como Asperger (BRITO et al, 2013). A intervenção
precoce com terapia em pacientes com autismo pode efetivamente melhorar
significativamente os sintomas. Atualmente, a análise do comportamento aplicado
é uma abordagem aceita mundialmente em terapias com crianças com
TEA.
Nos últimos anos, a investigação das características de brinquedos
terapêuticos para crianças com TEA tem sido considerada como um método
importante para a compreensão da patologia do autismo e mais estudos foram
realizados usando este tipo de método de brincadeira (TSENG; TSENG; CHENG,
2016).
Por favor, dê os créditos ao autor do artigo,
fazendo a referência correta:
MENEZES, Ana
Paula Sá. O Ato Terapêutico do Brincar para Crianças com Autismo. Educar
FCE, v. 9, n. 1, p. 62-75, out. 2017. Disponível em:
http://www.fce.edu.br/pos/educar-fce-9a-edicao
CADA CRIANÇA,
UMA DEMANDA
O autismo é caracterizado por
três traços comuns: (i) dificuldades com a interação social, (ii) comunicação verbal
e não-verbal alterada e (iii) comportamentos repetitivos. Até que ponto uma
pessoa é afetada pelo autismo varia, e é importante lembrar que duas pessoas –
apesar de serem diagnosticadas com TEA não são iguais. O que dá certo para uma
criança não necessariamente dará certo com outra criança autista. A boa notícia
é que, devido ao aumento dos diagnósticos de autismo precocemente, há muito o
que se pode ser feito para apoiar as pessoas que convivem com crianças com
TEA.
A intervenção precoce é
fundamental ao apoiar uma pessoa com autismo. Apoiar uma criança através da
ludicidade é a melhor maneira para elas aprenderem. O ato de brincar é mais do
que deixar uma criança brincar com brinquedos. No TEA, o objetivo do brincar
vai mais além do que com crianças neurotípicas: é a interação social e o
engajamento com as pessoas.
Para a criança com TEA, o ato
de brincar passa a ter uma abordagem em que essas crianças podem usar a função
do corpo para expressar uma emoção inerente para alcançar a comunicação interativa,
estabelecendo assim habilidades interpessoais e promovendo a adaptação social
(TSENG; TSENG; CHENG, 2016). No entanto, dado que estão limitados pelas
dificuldades de interação e comunicação, as crianças autistas geralmente jogam
sozinhas, raramente interagindo com outras pessoas. Assim, seus padrões de
brincadeiras tendem a ser bastante fixos e repetitivos.
Nada ilumina mais o cérebro
tanto quanto o ato de brincar. Brincadeiras tridimensionais ativam o cerebelo,
que mandam vários impulsos para o lobo frontal, o que ajuda o desenvolvimento
da memória contextual (GURUPARENTS, 2015; NATIONAL INSTITUTE FOR PLAY, 2017).
Das primeiras experiências do ato de brincar, as crianças aprendem a
compreender a linguagem corporal, o contato visual, a atenção conjunta, a
iniciação, a partilha, a resolução de problemas e as habilidades de referência.
O ato de brincar ajuda as crianças a desenvolverem habilidades importantes que
precisarão para o resto de suas vidas.
O National Institute for Play é
uma instituição de pesquisa sobre o Ato de Brincar (2017). É uma corporação sem
fins lucrativos de benefício público comprometida em trazer o conhecimento,
práticas e benefícios do ato de brincar na vida do ser humano. Fundado pelo Dr.
Stuart Brown, formado em Psiquiatria e Pesquisa Clínica. Ele descobriu pela
primeira vez a importância do jogo discernindo sua ausência em um grupo
cuidadosamente estudado de jovens homicidas, começando com o assassino em massa
da Torre da Universidade do Texas, Charles Whitman. Mais tarde, tornou-se
diretor clínico fundador e chefe de Psiquiatria no Mercy Hospital e Medical
Center e professor associado na UCSD em San Diego, Califórnia. Ao longo de sua
carreira clínica, ele entrevistou milhares de pessoas para capturar seus perfis
de brincadeiras. A catalogação de seus perfis demonstrou a presença ativa do
ato de brincar nas realizações das consequências negativas muito bem sucedidas
e igualmente identificadas que se serial killers acumulam inevitáveis em uma
vida privada do ato de brincar. Ao se falar em assassinos, dentre outros, muito
se fala na criação violenta que tiveram, muitos foram vítimas de agressões,
inclusive de cunho sexual. Pouco se falava, entretanto, na falta do brincar na
vida dessas crianças. Numa das pesquisas do Dr. Stuart, os pesquisadores
programaram ratazanas para que, num determinado período de sua infância um
grupo brincasse e outro grupo ficasse privado do ato. Depois, ambos
os grupos foram expostos a uma situação de estresse e ambos fugiram e se
esconderam. Entretanto, o grupo que foi permitido participar do ato de brincar,
mesmo com medo, saiu do esconderijo lentamente para explorar o ambiente e
verificar se estavam fora de perigo. O outro grupo permaneceu acuado e
escondido até morrerem. Os pesquisadores concluíram que o ato de brincar é
muito útil para a nossa sobrevivência. Muitas pesquisas com animais estão sendo
realizadas e todas elas levam a uma mesma conclusão: a privação do ato de
brincar, leva os indivíduos à depressão. (NATIONAL INSTITUTE FOR PLAY, 2017).
A criança autista não brinca
como as outras. Para que elas se envolvam apropriadamente com as várias
demandas e respondam a elas, requerem o auxílio de um terapeuta experiente e um
amplo espaço com muitos brinquedos e equipamentos simples, porém especiais. Quando
o terapeuta está fazendo o seu trabalho de forma eficiente, a criança está
organizando o seu sistema nervoso e parece que está simplesmente vivenciando um
passatempo. (GUIA MINHA SAÚDE ESPECIAL, 2016).
Entre no link e leia o artigo na íntegra: http://www.fce.edu.br/pos/educar-fce-9a-edicao
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