
Muitas pessoas veem o Lucas hoje e pensam que o processo de ensino-aprendizagem dele se dá naturalmente, como em crianças neurotípicas. Mas, não é bem assim.
No post de hoje, quero apresentar a vocês que o processo é lento. Mas, que não tira nem um tiquinho do grande orgulho que tenho dele.
Preciso enfatizar algo que precisa se levar em consideração ao se trabalhar com autista: a rotina, o ritual. O autista precisa se sentir seguro, por isso se faz necessário explicar as tarefas ao autista em etapas. Ele necessita saber com antecedência o que será feito o que é esperado dele.
Eu usava esse modelo ao lado (feito com caixa de leite). Como as tarefas do Lucas são divididas em 3 etapas, tem 3 botões. A cada etapa concluída, fecho o botão. Para as mamães mais criativas, sugiro um up no designe rsrrsrs
A criança com autismo precisa de comando para executar tarefas. Comandos simples e executáveis, como numa espécie de algoritmo. Muitas vezes, precisamos demonstrar, pegar na mãozinha deles e ensinar, pois muitos não sabem (ou não conseguem) imitar. Faz-se necessário muita paciência! Às vezes, precisamos repetir várias e várias vezes a mesma lição ou mesmo diminuir o nível da tarefa proposta. No caso do meu filho, ele tem baixa tolerância à frustração. Precisa ser muito e exaustivamente estimulado por elogios ou ele se nega a fazer a tarefa. Se ele começar a ter dificuldade logo no início da tarefa, você já o perdeu!
Antes de optar pela Educação Domiciliar (Homeschooling) eu refleti muito e fui tentando imaginar como seria se eu fosse assumir esse compromisso com o Lucas. A ED não é pra qualquer um ou qualquer família. Ela é específica para alguns casos e a pessoa precisa saber exatamente se ela se enquadra melhor no ensino formal das escolas ou na ED. No nosso caso, eu não via outra solução. Meu primeiro passo foi pesquisar e entrar em um grupo de Pais Homeschoolers.
Depois, fui fazer uma experiência com o Lucas. Estávamos em 2017. Já relatei em outros posts a relutância do Lucas em ir à escola. Todo ano era uma epopeia! Vômito, choro, socos e pontapés diariamente! E, muitas vezes tendo que escutar: "mãezinha, mas será que é autismo mesmo?" (e ele com o laudo do neuropediatra). Sem falar dos olhares atravessados dos outros pais. Ele só começava a aceitar ir pra escola a partir de setembro... daí, na 1a semana de dezembro acabavam as aulas e todo o trabalho ia por água abaixo porque, geralmente, eles só retornam das férias em meados de fevereiro. Isso sem falar na troca da professora.
Além desse problema com a escola, eu tinha medo de ele não acompanhar a turma pois autista geralmente tem déficit de atenção. Então eu me propus a trabalhar com ele em casa também. De segunda a sexta, ele fazia 3 tarefinhas diariamente comigo em casa. Sempre uma voltada à alfabetização, outra à Matemática e outra à motricidade fina. Por sorte, no Google, se acha de tudo. Pedi muitos conselhos às minhas colegas de profissão, professoras do Ensino Superior e Pedagogas. Sem a ajuda delas, eu não teria conseguido. Infelizmente, para cada uma que ajudava, a escola atrapalhava por não aceitar o tempo e o jeito dele.
Tem uma frase que roda nas redes sociais que acho muito interessante, que adaptaram em uma imagem:
Eu sempre me perguntava isso. Na faculdade de Educação, ensinam-nos a respeitar o tempo de cada criança porque elas são únicas... mas, na prática, isso não ocorre, especialmente com autistas.
Iniciei então o trabalho com o Lucas em casa enquanto ouvia relatos de pais HS (Homeschoolers) no YouTube e em sites que promovem a Educação Domiciliar/Homeschooling (ED/HS). Vamos combinar: Educação Domiciliar = Homeschooling (ED = HS).
Em todos os relatos, os pais aconselhavam-nos a ter um arquivo com datas. Todas as atividades precisavam ser registradas devido a alguma denúncia no Conselho Tutelar. Era difícil e constrangedor falar sobre algo que muitos não entendem e não aceitam e passível de perda de pátrio poder. Esses pais são meus heróis e minhas referências na ED.
Resolvi "treinar" para a ED e criei a página do Lucas no Facebook (https://www.facebook.com/lucas.anjo.azul.autismo/) e este blog. Quase não tenho seguidores, até porque o objetivo era o registro das atividades diárias. E não era fácil. Muitas vezes não dava tempo... muitas postagens sumiram no Facebook. E aqui, eu acabava esquecendo. Eu tinha o objetivo de escrever um livro também. Escrevi, a editora gostou, mas não tive capital para publicar. Levei 2 anos para tentar entender que eu não ia mais chegar ao auge de minha carreira, nem fazer mais Doutorado e nem escrever mais os resultados de minhas pesquisas (minha paixão!!). Hoje, estou mais preocupada em ser mãe do Lucas, apenas. Mãe de autista.
A gente precisa ler muito. Mas, para auxiliar outras mães que desejam ajudar seus filhos autistas em casa, resolvi voltar com o blog. Mas, dessa vez, semanalmente. Hoje, saí da regra pois algumas mães têm me procurado e pedindo as atividades sem entenderem que não é só "dar a atividade"... há toda uma trajetória por detrás de cada conquista. O Lucas é o que é hoje não por eu ser uma super mãe, mas porque havia muitos terapeutas e especialistas me apoiando. Agora, estou sozinha... mas, me amparo na pesquisa. Fiz cursos na área de Autismo... e pretendo fazer outros.
A seguir, algumas reminiscências que sobraram no Facebook. Eu ainda não fazia muita ideia do que era ED, por isso está sem planejamento. Bem diferente deste ano de 2019. Infelizmente, perdi os registros de 2018.
Qualquer dúvida, estou à disposição!
28/04/2017
Hoje o objetivo é ensinar meu filhote nos caminhos do Senhor. De nada adianta ele ser excelente academicamente e não reconhecer que só o Senhor é Deus! Fiz esse avental para trabalhar com ele o tema da Criação.
"Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele". (Pv 22.6)
04/05/2017
Hoje, resolvi revisar Quantidade. O Lucas gosta de Matemática (puxou aos pais que já foram professores de Matemática). Mas eu notava que, apesar dele já saber contar até 20, se você perguntasse "que número é esse?", ele não sabia que aqueles símbolos eram os "números". Aproveitei pra trabalhar a motricidade fina também.

09/05/2017
Tarefa 2 - O exercício consistiu de ele pintar as figuras que iniciasse com A. Apesar dele falar as palavras, acho que eu não soube explicar o exercício. Tive que escrever a letrinha, mesmo assim, ele queria pintar tudo. Ele não entendeu a proposta.

15/05/2017
E depois de 3h de exaustivo trabalho (pintar com lápis-de-cor cansa a mãozinha!), ele arrumou as máscaras no sofá, olhou pra mim e disse: "prontinho! pode tirar foto!" e abriu o sorrisão (daí, pra foto, ele diz xiiiis)!

25/05/2017
Nossa, gente! Às vezes, pensamos que eles não entendem nada... Venho chateada todos os dias dizendo que estou tendo que pegar na mãozinha dele pra ele sentir o ritmo. Hoje, mais uma vez, iniciei pegando na mãozinha e, depois, larguei. Ele estava fazendo menos rápido. Para minha surpresa, ele deu um gritinho de felicidade dizendo <consegui, consegui>. É, realmente, aquela figura ficou legal. Mas, na empolgação, desandou as finais. Mas, é um começo. A luzinha no fim do túnel me mostrando que estou no caminho certo.

26/05/2017
Hoje, resolvi que, ao invés de seguir o tracejado, ele preencheria com os círculos pretos. Ele já sabe que deve fazer devagar. Mas, noto que ele tem muita dificuldade de focar sua atenção na atividade. Fim de semana pra pesquisar e segunda-feira, devo ter novidades. Beijão.

05/06/2017
Continuamos com as sílabas, mas sem esquecer as tarefas de motricidade fina.
Solicitei que ele fizesse as vogais com palito de "pecolé" como ele chama. Sei que tenho que corrigir, mas é tão bonitinho ele falando. Hoje, iniciamos o L.

21/06/2017
Ontem, 20/06, começamos o Pocoio (fiz com I para ele entender o som). Depois, pedi para ele pintar apenas as sílabas. Ele está com hiperfoco no Pocoyo.

Hoje, amei o pontilhado. Ele está fazendo sozinho. Mas, modifiquei o comando. Iniciei comigo passando o dedo no tracejado a ser feito. Depois, passei o dedinho dele pelo tracejado. Só então ele cobriu com a canetinha. Observe que a 1a minhoca ficou perfeita.

22/06/2017
Muito orgulhosa do meu anjo. Hoje, além de ter caprichado no tracejado, escreveu pela primeira vez o nome dele. Está logo abaixo em cor de rosa. O autista ou escreve bem clarinho ou escreve tão forte que rasga o papel. Mais um desafio!

Agora em 2019, as aulas foram planejadas, ele tem uma sala de aula montada e 8 disciplinas: Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, História, Geografia, Ensino Religioso, Atividades Manuais e Educação Ambiental.

Nenhum comentário:
Postar um comentário