Até aproximadamente 2 anos de idade, eu era uma criança normal (neurotípica).
Minha mãe começou a observar que, quando eu era contrariado, minha irritação era diferente da de outras crianças. Eu batia minha cabeça muito forte nas paredes. Minha testa vivia roxa e com um galo. Meu pai dizia que eu parecia um bode.
Mas, diferente do que você possa estar pensando, eu não me contrariava por coisas que outras crianças chorariam. Coisas simples me deixam em desespero e eu começo a ficar desesperado. A palavra é essa. Eu era muito (muito mesmo!) apegado à minha irmã Tati. Ela casou. E foi morar na casa dela. E quando ela vinha me visitar eu não queria que ela fosse embora. E ela, sem saber por que eu agia daquela forma, evitava me visitar... Quebrei 2 portas de vidro com cabeçadas, Quebrei o dente da frente, cortava meus lábios... me machucava muito... mas parecia que eu não sentia dor.
Minha mãe me levava à pediatra e ela dizia que eu era normal, que apenas eu não tinha limites porque, como meus pais já eram velhos, me tratavam como neto e não como filho.
Com 1 ano e meio fui para minha 1a escola: o CDI Curumin. Odiava. Acho que até hoje odeio a escola pela experiência nada agradável que tive lá. Eu chorava todo dia até vomitar. Não interagia. Não brincava. Mordia quem chegava perto. Não me interessava por nada. Minha mãe me deixava lá para ir trabalhar e eu me sentava no balanço. Quando ela chegava, eu continuava sentado no balanço. Foram 2 anos assim... diariamente... 2014 e 2015.
Em 2016, fui estudar no Colégio Claretiano de Boa Vista-RR. Lá, começaram a desconfiar que eu poderia ter TEA. Eu tinha uma monitora só pra mim. Eles eram muito preocupados com a minha inclusão. Eu parei de morder os coleguinhas. Gostava de Artes. Apesar da inclusão, mesmo assim, eu continuava não gostando de ir à escola. No parquinho, eu me soltava, mas por dificuldades devido à minha condição, eu acabava me empolgando e empurrava outras crianças, machucando-as. Daí, mamãe fez um quadro pra mim e lia todos os dias antes de eu ir pra escola. Nele, tinha umas gravuras e eu tinha que repetir: não pode morder - não pode bater - não pode empurrar.
Com a desconfiança de TEA, fui levado à 2a neuropediatra, mas ela não conseguiu me diagnosticar. Mesmo assim, na escola, tudo era tratado como se eu já tivesse laudo. Nessa época (2o semestre de 2016), meu pai foi transferido para Brasília-DF e eu fiquei com minha mãe em Boa Vista-RR.
Minha mãe passou a estudar TUDO sobre TEA e começou a aplicar suas pesquisas em casa. Foi aí que veio minha experiência com o ABA e o reforço positivo.
Nessa época, eu já não falava mais, não olhava nos olhos e babava.
Minha mãe largou o emprego para cuidar de mim. Eu saí da escola (mas a escola continuava ajudando minha mãe, acompanhando meu progresso! Obrigado, tia Katia). Éramos só eu e minha mãe. Só nós dois. Eu tinha um Quadro de Rotinas Diárias e figuras espalhadas pela casa Tudo isso foi a tia Kátia que ensinou à minha mãe). Minha mãe começou também a usar o método PECs e o TEACCH.
Viemos para Brasília em 06 de dezembro de 2016. Eu pensei que meu irmão Rafael vinha no mesmo avião que eu... mas ele não veio... Estou sem falar com ele desde então. Por mais que ele queira falar comigo ao telefone, eu não quero.
Em 13 de janeiro de 2017, recebi meu diagnóstico: TEA de Alta Funcionalidade.
Minha mãe diz que essas 3 letras não me definem.
Hoje, voltei a olhar nos olhos, não babo mais e falo frases de até 3 palavrinhas. Entendo tudo o que você fala, só não sei entabular ou manter uma conversa.
Ah, já ia me esquecendo... estou aprendendo a dizer: Eu sou o Lucas!
PS: Sei que quando meu filho superar o TEA (e ele vai superar porque o Deus que eu sirvo é Fiel, ele vai concordar com tudo o que escrevi acima. Essa ligação mãe-filho autista permite que nos falemos apenas com o olhar. É um amor diferente, especial...
Impactante e emocionante essa ligação de mãe e filho, que faz com que a mãe consiga traduzir em palavras os sentimentos do filho que AINDA não consegue verbalizar. Parabéns Ana Paula,pela sensibilidade e superação! #privilégiosersusamiga!
ResponderExcluirObrigada! Mas só Deus, amiga...
Excluir