Vou iniciar meu texto refletindo e parafraseando Nara Rúbia Ribeiro. Não a conheço, mas suas palavras calaram profundamente em minha alma:
"Na era do culto às celebridades, do elogio à desinteligência, da ânsia pelo fútil, do aplauso ao vazio, quanto vale um professor? Nada. Talvez menos que nada. Talvez seja um número negativo, uma subtração ao padrão de mundo que a maioria almeja." (1)
Vou tentar voltar essa fala para apenas um dos imensos problemas que permeiam as escolas: a inclusão de alunos especiais, especialmente AUTISTAS (no meu caso). Quanto vale uma professora que realmente consegue fazer INCLUSÃO de verdade?
O autismo é uma síndrome que afeta o desenvolvimento em três importantes áreas: comunicação, socialização e comportamento. Dentro das Desordens do Espectro Autista (DEA), a síndrome pode se manifestar de forma leve a severa e, normalmente, as alterações comportamentais já podem ser notadas nos primeiros anos de vida (até os 3). Não há estatística oficial entre os brasileiros, mas especialistas acreditam que a proporção seja semelhante à encontrada em outros países: uma em cada 50 crianças tem o transtorno, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. (2)
Por uma das áreas afetadas ser a Socialização, acho de suma importância o papel da escola nesse processo (não exclusivo, é claro!).
Bem, mas vamos continuar nosso texto.
Desde 1,5 ano que meu Lucas (que foi diagnosticado em 13/01/2017, com quase 5 anos) vai à escola. E sempre ODIOU a escola. Já fiz inclusive um post aqui no blog sobre isso. Pois bem, neste ano, não foi diferente. Ele foi matriculado na Escola Classe da Vila do RCG (Regimento de Cavalaria de Guarda) aqui em Brasília, numa classe inclusiva. Nos 15 primeiros dias, ele foi numa boa. E eu sem entender nada, pois o Lucas nos últimos 4 anos sempre demonstrou sua aversão por escolas. Ele ia das 13h Às 15h (período de adaptação). Entretanto, depois desse período, o Lucas que eu conhecia retornou. Escândalo já em casa para não tomar banho, não almoçava, ia me chutando de casa até chegar à escola, fazia escândalo pra entrar, vomitava. Era um inferno! A escola também não ajudava... eu tinha que escutar perguntas do tipo: mãezinha, ele é autista mesmo? será que não é só a falta de limites? E eu juro que, por mim, eu tinha saído de Brasília naquela época mesmo. O que me confortava, às vezes, era a professora dele me dizendo "calma, Ana, ele vai melhorar!". Mas, eu não conseguia acreditar. Penei... foram meses estressantes de verdade. Muitas pessoas me aconselhavam a trocá-lo de escola, inclusive uma das neuropediatras que eu o levei.
A última e atual neuropediatra dele, ao escutar tudo, solicitou que a escola fizesse horário reduzido. E isso foi uma maravilha. Ajudou sobremaneira.
Depois dessa breve contextualização e de tantos conselhos para mudá-lo de escola, viajamos para Boa Vista-RR, para que ele visitasse os irmãos. Ao conversar com a sua professora sobre a viagem, ela falou que as crianças iam sentir falta do Lucas. Achei que ela estava falando por falar, por ser educada... Na volta, entretanto, fiquei surpresa com o grito que as crianças deram ao receber o Lucas. E acho que ele mesmo sentiu isso, pois desde então, nunca mais quis faltar. Ele mesmo pede para almoçar, tomar banho e se arrumar. Pede perfume para ficar cheiroso e tudo. Hoje, ele gosta da escola. Mas, por quê? Porque ele se sentiu incluído.
O grande educador Dom Bosco dizia que um aluno precisa se sentir amado, não apenas "saber" que é amado (a partir de nossa fala apenas). Mas, esse amor, essa "inclusão" do Lucas pelos colegas se deve ao esforço de uma pessoa que não desistiu dele. Que sempre me disse para confiar, que ensinou empatia às crianças da turma pelo Lucas. Ninguém nasce empático, isso é construído. Essa professora conseguiu isso... conseguiu algo impossível a tantas outras professoras que também tentaram, mas, infelizmente fracassaram. Talvez essa professora nem saiba da educação salesiana (Dom Bosco), mas ela descobriu, de forma natural (ou não! rsrsrsrs) que o Lucas precisava se sentir incluído, não apenas estar na sala dita inclusiva.
Discuti isso com uma psiquiatra que levei o Lucas, pois ela queria que o Lucas ficasse numa sala separada e só se encontrasse com os coleguinhas durante o recreio. Bati o pé e disse NÃO. Inclusão não é isso.
No artigo "Da Educação segregada à educação inclusiva: uma breve reflexão sobre os paradigmas educacionais no contexto da educação especial brasileira", Rosana Glat e Edicléia Mascarenhas Fernandes explicam: "Neste contexto é que se descortina o novo campo de atuação da Educação Especial. Não visando importar métodos e técnicas especializados para a classe regular, mas sim, tornando-se um sistema de suporte permanente e efetivo para os alunos especiais incluídos, bem como para seus professores. Como mencionado, a Educação Especial não é mais concebida como um sistema educacional paralelo ou segregado, mas como um conjunto de recursos que a escola regular deverá dispor para atender à diversidade de seus alunos."(3)
Essa professora para mim foi o divisor de águas na vida de meu filho num problema que eu considerava insolúvel. Lembro de levar a ela minha preocupação com conteúdo e ela sempre repetindo: "calma, mãezinha, o importante agora é o Lucas socializar". O Lucas brinca com os coleguinhas no parquinho, reconhece todos pelo nome. Os coleguinhas cuidam dele, ajudam-no. E ele tem o melhor amigo: o Enzo.
Essa professora conseguiu atrelar uma equipe com ela. Duas, em especial: Larissa Trajano (monitora) e a professora Graziela (da Sala de Recursos).
Essa professora entendeu que a padronização da rotina e das atividades pedagógicas apresenta-se como uma prática incoerente quando o assunto é Educação Inclusiva. Passamos a nossa formação inteira escutando de nossos mestre na faculdade que cada aluno é diferente, que cada aluno tem seu tempo... mas, na práxis pedagógica isso dificilmente é posto em prática. Para que a inclusão dê resultados de fato, é necessário que o professor assuma a construção de um currículo ajustado às necessidades do aluno com deficiência. Nesse sentido, a flexibilização é recomendada, sempre tendo como foco a valorização das potencialidades singulares de aprendizagem e de desenvolvimento do estudante. Isso compreende adaptar rotinas escolares, recriar processos de ensino e de avaliação e propor atividades específicas. (4). No caso de crianças autistas, é essencial oferecer propostas pedagógicas variadas, baseadas no que a criança se sente mais à vontade ou explorar de fato seu hiperfoco. Essa professora fez isso. Lucas ama Pocoyo, então tudo que ela faz e que ela pode, ela usa o Pocoyo. Até DVD do Pocoyo, ela comprou (do dinheiro dela, professora de escola púbica) para que o Lucas sentisse prazer de ficar em sala de aula.
Essa professora conseguiu levar o Lucas a um passeio sem a minha pessoa, levou-o ao cinema e tem feito muitos progressos com o Lucas.
Qual é o nome dela?
ADRIANA FRANCO
Mas eu a chamo carinhosamente de TIA INCLUSÃO!
Quanto vale essa professora?
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(1) Disponível em: http://www.contioutra.com/quanto-vale-um-professor-1/
(2) Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/3439/a-inclusao-de-estudantes-autistas
(3) Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/588/educacao-inclusiva-desafios-da-formacao-e-da-atuacao-em-sala-de-aula
(4) Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/693/devo-cobrar-de-um-aluno-autista-que-siga-a-rotina-dos-colegas



